Há mais de dois mil anos, as boas novas da salvação em Cristo têm sido proclamadas, progressivamente, entre as nações. A cada nova geração, constatamos que muitas pessoas têm sido chamadas pelo poder do evangelho, e novos guias espirituais também têm surgido no meio da igreja. O aparecimento destes novos líderes traz consigo o perigo de que o antigo evangelho, pregado pelos pastores do passado, possa sofrer alterações na sua mensagem inicial, a ponto de termos outros evangelhos sendo anunciados ao mundo.
A Palavra de Deus nos exorta a permanecermos fiéis às doutrinas ensinadas pelos apóstolos. A carta aos Hebreus é um bom exemplo disto. Esta carta tem uma mensagem especial para qualquer época que seja marcada pela apostasia. Nela encontramos palavras que nos exortam a permanecermos firmes na fé, e a preservarmos o conteúdo da mensagem cristã que foi entregue à igreja.
O autor de Hebreus escreveu o seguinte: “Lembrai-vos dos vossos guias, os quais vos pregaram a palavra de Deus; e, considerando atentamente o fim da sua vida, imitai a fé que tiveram. Jesus Cristo, ontem e hoje, é o mesmo e o será para sempre. Não vos deixeis envolver por doutrinas várias e estranhas, ...” (Hebreus 13.7-9, edição Revista e Atualizada da Sociedade Bíblica do Brasil). Em outras palavras, ele está dizendo que os cristãos deveriam lembrar dos velhos pastores do passado, e observar, cuidadosamente, o exemplo de suas vidas. Eles deveriam imitar a fé perseverante que os antigos pastores tinham. Isto aconteceria quando eles defendessem as mesmas doutrinas, seguissem os mesmos passos de fé e falassem as mesmas palavras piedosas. Era importante que os primeiros leitores daquela carta considerassem o fato de que os pastores envelhecem e morrem, mas que o Senhor Jesus Cristo, e os seus ensinos, não perecem e não mudam com o passar do tempo. Assim, não tinha cabimento algum que eles se envolvessem com doutrinas várias e estranhas. Não deveria haver espaço para novidades doutrinárias dentro do cristianismo.
O Novo Testamento está recheado de exortações para que os líderes, e os demais membros da igreja, preservem a verdadeira e imutável doutrina da salvação. Vejamos algumas exortações que o apóstolo Paulo deu a Timóteo, sobre este assunto (As citações abaixo são da edição Revista e Atualizada da Sociedade Bíblica do Brasil):
“Expondo estas cousas aos irmãos, serás bom ministro de Cristo Jesus, alimentado com as palavras da fé e da boa doutrina que tens seguido”.
“Tem cuidado de ti mesmo e da doutrina. Continua nestes deveres; porque, fazendo assim, salvarás tanto a ti mesmo como aos teus ouvintes”.
“Mantém o padrão das sãs palavras que de mim ouviste com fé e com o amor que está em Cristo Jesus. Guarda o bom depósito, mediante o Espírito Santo que habita em nós”.
“E o que de minha parte ouviste através de muitas testemunhas, isso mesmo transmite a homens fiéis e também idôneos para instruir a outros”.
Timóteo deveria manter o padrão da verdadeira doutrina, e zelar para que os novos guias espirituais da igreja também fizessem o mesmo. E, como numa corrida de revezamento, o líder eclesiástico só deveria passar o “bastão” quando soubesse que o próximo “corredor” já havia segurado firme a mensagem cristã que lhe estava sendo entregue. Paulo também avisou aos pastores de Éfeso que iriam surgir lobos no meio do rebanho do Senhor (Atos 20.29-32). Mas, apesar destas advertências, já na época apostólica, apareceram falsos mestres e vários desvios doutrinários. A igreja primitiva enfrentou as heresias do gnosticismo, do antinomismo e daqueles que tinham idéias judaizantes.
O perigo sempre será o mesmo para os nossos dias. Portanto, cabe aos fiéis preservar o Bom Depósito com as suas próprias vidas. Mas para isto, devemos compreender o seu conteúdo. Devemos entender a sã doutrina que está registrada nas páginas da Escritura. Ela é a nossa única regra de fé e prática. Ela é suficiente, certa e infalível para obtermos o conhecimento necessário para a nossa salvação. Na Bíblia encontramos importantes assuntos que norteiam a nossa fé e a nossa conduta cristã, tais como: A Doutrina de Deus; A Doutrina do Homem com Relação a Deus; A Doutrina da Pessoa e Obra de Cristo; A Doutrina da Aplicação da Obra da Redenção; A Doutrina da Igreja e dos Meios de Graça; A Doutrina das Últimas Coisas. A Escritura trata destas doutrinas em vários locais. Por isto, para compreendermos e preservarmos estes ensinos, nós precisamos reunir os textos bíblicos que tratam de cada um deles, e assim chegarmos à conclusão do que a Escritura ensina sobre cada um desses assuntos. Mas, amados leitores, esta tarefa já foi realizada pelos velhos pastores do passado. Os antigos guias fizeram resumos sistemáticos das verdades fundamentais do cristianismo, a fim de que a interpretação correta do Bom Depósito fosse preservada e ensinada nas igrejas. Estes resumos sistemáticos podem ser classificados em quatro tipos gerais: Os Credos, as Confissões de Fé, os Catecismos e os Cânones.
Os Credos são declarações doutrinárias elaboradas pela igreja primitiva. As Confissões de Fé são declarações formais da fé cristã histórica, formuladas pelos cristãos desde os primeiros dias da Reforma Protestante. Os Catecismos são declarações de fé estruturadas na forma de perguntas e respostas, de forma a ajudar na catequização dos cristãos. Os Cânones são decisões oficiais de concílios eclesiásticos que visam apresentar a posição oficial da igreja a respeito de determinados assuntos, os quais precisam ser esclarecidos para que a unidade confessional da igreja seja preservada.
Já que mencionamos a Reforma Protestante, é bom dizer que aquela época foi muito propícia para a composição de documentos confessionais. A publicação das obras teológicas dos líderes da Reforma Protestante trouxe à tona questões doutrinárias muito importantes. Era necessário que as comunidades que abraçaram os ensinos da Reforma possuíssem declarações doutrinárias da fé, que a partir daquele momento, estavam vivenciando. Os cristãos precisavam de resumos teológicos sistemáticos que todos pudessem entender e preservar. Além disto, os erros de Roma precisavam ser refutados. Estes documentos funcionaram como um material para instrução regular dos fiéis mais humildes, como instrumentos de unidade confessional, e também como um tipo de estandarte que tornava claro as diferenças para com os oponentes da verdadeira fé cristã.
Uma coisa está clara para nós: Se estes documentos tiveram importantes papeis naquela época, então, certamente, eles também têm seu lugar na igreja de nossos dias. Ainda hoje, é importante que a mensagem cristã seja declarada de forma clara. Precisamos de uma definição ortodoxa da doutrina que deve ser ensinada e pregada na igreja. Nosso povo precisa estar unido por meio de um só pensamento. Os pastores precisam ser avaliados a partir da doutrina cristã histórica. Nós devemos deixar claro para todos os demais grupos religiosos aquilo que nós cremos. Nossos membros precisam de uma diretriz de ensino fiel às Sagradas Escrituras, e isto pode ser conseguido por intermédio desses documentos que resumem aquilo que o Senhor revelou em Sua Santa Palavra. As heresias ainda rondam o aprisco dos santos. Novidades surgem a cada dia, e não podemos permitir que o Bom Depósito seja contaminado pelo falso ensino. Por estas razões, a Igreja Reformada em Esperança adota como símbolos confessionais os seguintes documentos do cristianismo histórico e ortodoxo: Da Igreja Primitiva, temos os Três Credos Ecumênicos (O Credo Apostólico, o Credo Niceno e o Credo Atanasiano), e da Reforma Protestante, temos as Três Formas de Unidade (A Confissão Belga, o Catecismo de Heidelberg e os Cânones de Dort).
Pr. Laylton Coelho de Melo.